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PRÓLOGO
ESMÓDIA
Saráiba limpou as gotas de suor da testa com a manga do vestido de veludo. Sabia que tinha o rosto afogueado. Podia sentir as bochechas queimando. Mas a saleta estava muito mal iluminada para que os outros percebessem.
Um fogo ardia na grande lareira, e Serrásse e Páchia dispunham seus soldadinhos de mármore rosa e preto sobre o tapete de pele de alce. Sorriu ao ver as mãozinhas delicadas de Páchia fazendo esforço para seguir as ordens do primo. A testa estava franzida e a linguinha despontava dos lábios vermelhos, bem apertada entre os dentinhos de leite. Serrásse sacudiu a cabeça, insatisfeito, e Páchia se apressou em passar os cavaleiros para o fundo da investida dos soldados pretos.
Uma contração fez com que Saráiba cravasse as unhas nos braços da cadeira estofada. Apertou os olhos e respirou fundo, tentando não fazer o menor ruído e quando percebeu que Vvaria pousara seus intensos olhos negros sobre ela, sorriu-lhe, tentando aparentar calma.
O ar estava gelado fora do alcance da lareira, mas o frio a acalmava. Parecia acalmar o bebê também. Ele estava menos agitado agora do que quando do início das contrações no começo da tarde.
Saráiba tirou os pés das sapatilhas de couro macio tingido de azul e os descansou no chão de mármore branco. O choque de temperatura a fez pensar na infância, no Norte. Sorriu ao se lembrar dos passeios ao Mar Duro e das escaladas inseguras das crianças nos icebergs menos perigosos. Os adultos rindo quando um deles escorregava pelo gelo, pernas e braços se debatendo no ar, como aranhas desajeitadas.
O sorriso murchou quando se lembrou que era a última Qqataria ainda viva. As terras de seu pai estavam vazias haviam três estações. Abandonadas. Saráiba imaginou os corpos congelados nas ruas e casas das duas vilas sob o poder de sua outrora poderosa e orgulhosa família. Os animais mortos nas fazendas. Todos os Qqataria ainda em suas camas. Os olhos arregalados, as bocas entreabertas num esgar de dor. A pele infestada de pústulas negras que cuspiam um pus esverdeado e fétido quando ainda viviam. Os corpos afundados em poças congeladas de sangue, urina e fezes.
Ela implorara a Veliórdino que a deixasse ir até eles quando a primeira pomba trouxe a notícia da morte de seus dois sobrinhos mais velhos e de sua irmã mais nova. Ele a encarara como se ela houvesse perdido a razão. Sua voz gelada não se elevou um tom, quando disse: “Acaba de me informar que vamos ter outro filho e crê que te deixarei partir?”. E não disse mais nada sobre o assunto.
Algumas luas depois, não esperara que ela viesse até ele. A notícia se espalhara pelo palácio como chamas num celeiro abarrotado de palha. Convocou-a à grande biblioteca da torre principal. Interrompeu a discussão entre seus magaaelis e conselheiros, e encarou-a, “Vamos cuidar dos corpos da maneira direita quando isso acabar.” Ela assentira com lágrimas nos olhos. Ele fechara os portões da muralha interior no dia seguinte. Como se o Palácio Branco pudesse adormecer ante o pandemônio do exterior.
A vila de Ursa Maior urrara do lado de fora. O povo gritou e esperneou como uma criança mimada. Mas a doença os acalmou. Talvez estivessem tão mortos quanto os Qqataria agora.
Saráiba secara suas pernas e o chão do quarto com o primeiro vestido que vira, mais cedo. A bolsa estourara quando se preparava para o jantar no pequeno salão. Angustiada, escondera-o debaixo da grande cama de dossel e entrara nas vestes de veludo roxo, apressada. Há mais de seis dias que percebera que tinha de esconder seu corpo.
Sentia o prurido intenso na parte interna das coxas, nas axilas e no pescoço, e se concentrou na brincadeira das crianças, tentando tirar de sua mente a vontade de se coçar, de raspar suas unhas na pele até que sangrasse. Uma nova contração foi distração suficiente e ela sentiu gotas de suor descerem por entre os cabelos escuros soltos, e pescoço abaixo.
Queria gritar, pedir que Vvaria trouxesse a parteira e os sacerdotes. Queria se agachar e fazer força. E expulsar aquela criança de seu corpo como fizera com os três mais velhos. Mas ainda não era hora.
O pombo com a mensagem dos Mmirtara viera no dia anterior. Lars havia sido visto pelos batedores do Revar que se arriscavam além dos muros do castelo em busca de alimentos para o grupo reunido sobre a proteção da antiga família. Não haviam mencionado o que o cunhado do rei lhes dissera, apenas que estava a caminho.

Ele chegaria a qualquer momento com as melhores notícias. A barriga de Saráiba ainda crescia, timidamente, quando Lars partira para o Leste. Ele deveria voltar com um sorriso no rosto e a notícia de alívio para toda Esmódia e os outros reinos do Oeste. O apoio das Terras Ricas. Alimento e ajuda dos reinos ensolarados do outro lado dos Dedos dos Deuses.
Ela suspirou, esperançosa. Os portões dos palácios, dos castelos, das mansões, fazendas e vilas muradas de todo o Oeste iriam se abrir. E a doença enfim recuaria, deixando-os livres para reconstruir tudo o que haviam perdido. Levantariam suas cabeças e deixariam aquela experiência terrível para trás. Teriam seu orgulho de novo. Dignidade, brio… Não seriam mais um bando de ratos escondidos em suas tocas, com medo do que lhes traria o próximo amanhecer.
Artúria forneceria remédios exóticos de além-mar. Númia enviaria seus melhores sacerdotes de Sabila, o deus da cura do Leste. Financiariam a reconstrução das moradias incendiadas no calor do medo e da fúria, por vizinhos temerosos, e fariam o comércio renascer. Diesse e Tresor os encheriam de cereais, frutas, legumes e carne. E todos aceitariam coletar as dívidas quando as famílias reais do Oeste e seus Revares estivessem fortes de novo.
E Saráiba poderia trazer um novo bebê ao mundo, com a certeza de que ele seria um enviado da fortuna.
Ele cresceria num reino forte e orgulhoso, como seus irmãos. E não enterrado no medo, farejando a doença e a morte a cada manhã. Ela poderia descansar, então. Sabendo que cumprira seu dever. Quatro meninos fortes. Quatro novos elos para a família dos ursos.
E ela não precisaria mais esconder.
Nessa época do ano, o Palácio Branco deveria estar repleto de vozes e passos. O inverno manteria a família real, seus convidados, os guerreiros e os criados na segurança das grossas paredes de mármore, cujos cômodos eram internamente revestidos de boa e antiga madeira, que conservava o calor das lareiras.
As crianças e as jovens criadas correriam pelos corredores de pedra, onde o frio se acumulava a ponto de transformar as respirações em fumaça branca e densa, mas os mais velhos caminhariam com a tranquilidade dos que sabem que tudo passa, tudo muda. O inverno se tornaria outono e o verão não demoraria… Os bebês largariam o peito das amas, os meninos soltariam as mãos das mães para tomar as espadas de treino, os nobres viriam e partiriam, os súditos apontariam problemas e as grandes famílias de Revares encontrariam soluções. Viriam as pequenas festas dos deuses para os quais sua família e poucas outras haviam se virado. Odino, Lenastra, Flórian… E os grandes e imponentes sacrifícios em honra dos grandes deuses do Oeste. Barrao, Piága e Rocco, os irmãos adorados pela família real e pela esmagadora maioria de seus súditos.
Mas não nas últimas estações.
Pois no último inverno, os deuses haviam enviado a praga. Plantada com cuidado e sem alvoroço nas vilas de fronteira, de onde pôde se espalhar para todos os Velhos Reinos. Carregando ricos e pobres com igualdade, varrendo vilas, fazendas, mansões, castelos e palácios.
Saráiba desejara que seu quarto filho não nascesse em meio ao caos e à morte. Tivera esperanças de que a doença se extinguisse até o verão. Durante a primavera, talvez.
Era o fim do inverno e o bebê estava a caminho.
Mas não antes de Lars. Não antes das boas notícias.
Saráiba pousou seu olhar nos meninos adormecidos no tapete e só o afastou quando ouviu passos apressados no corredor.
— Majestade… Ele está no portão.
Vvaria se pôs de pé em um pulo, correndo a oferecer suas mãos fortes. Saráiba aceitou-as e pôs-se de pé com dificuldade. Calçou as sapatilhas olhando para baixo, para evitar que a cunhada visse seu rosto tensionado por outra contração. O escudeiro do rei estava nervoso. Parecia mais novo que o príncipe-herdeiro, com quem regulava a idade. As últimas estações haviam cobrado seu preço na aparência do príncipe Sâmbar. Dezesseis verões e com olheiras de exaustão e fios brancos que salpicavam seus cabelos negros.
Cabelos como os da princesa Vvaria e do rei. Toda uma família de pele branca, e olhos e cabelos da cor dos corvos. Eram fortes e decididos. Pragmáticos e enérgicos. Encaravam cada novo pesar com praticidade e sempre buscavam soluções sensatas. Eram pacientes. Não choravam à noite como ela chorava. Não se ajoelhavam ante os símbolos dos deuses entre soluços desesperados. Saráiba Qqataria era uma filha do Norte. Ensinada a falar com os bons deuses vindos do Leste em noites estreladas, e a brincar e a cantar entre as geleiras.
Mais de dez luas haviam se passado desde a partida de Lars, mas Vvaria acompanhava seus passos lentos, corredores afora, em vez de correr para os braços do marido. Seu rosto era a mesma máscara de sempre. A máscara com que Saráiba a vira se casar, olhar para o primeiro filho pela primeira vez, aconselhar o irmão quando ele assim desejava e ver o marido ser enviado através da doença e do horror para o Leste. Saráiba sabia que podia contar com ela. Vvaria era sua única irmã agora.
Atravessaram o Salão Alto, com suas mesas decoradas por talentosos carpinteiros há tantas gerações atrás. Os escudos de todos os Revares e de todos os nobres vassalos do reino enchiam as paredes, como um lembrete de que Esmódia só sobreviveria unida. Uma escada lateral as levou para os corredores que vinham das cozinhas, localizadas na ala mais afastada no palácio e Vvaria empurrou uma pesada porta de madeira que conduzia a uma antiga passagem subterrânea. Era o caminho mais curto, mas Saráiba sentia arrepios ao cruzar aquele túnel escuro. O cheiro de mofo e as teias de aranha ressurgiam sempre que ela ordenava que a passagem fosse esfregada e limpa. Ósse dera sustos nos criados e nas outras crianças uma centena de vezes ali.
Alguns degraus as levaram para o Salão Comum, onde a poeira se acumulara. Não haveria hóspedes ou banquetes enquanto os portões estivessem fechados.
Na escadaria exterior, Saráiba achou que teria de dizer a verdade. As contrações estavam cada vez mais próximas e seu coração parecia querer rasgar o peito. Suava apesar do vento frio que as recebeu do lado de fora e seus olhos arderam ante o branco do mar de neve e do alto muro de mármore. Quatro vezes a altura de um homem e uma vez a largura. Um monstro de outra época.
Tomou coragem ao pensar no bebê e na vida que ele teria. Ao lado de seus irmãos, de seu pai, tios e primos. Protegido da morte e da fome.
Aceitou o longo casaco de pele de urso que uma criada segurava, à sua espera, mas precisou de ajuda para vesti-lo. Forçou um sorriso para Vvaria, ao fitar a figura de Lars ao longe. Veliórdino ordenara que o gigantesco portão de madeira e ferro fosse aberto. Duas fileiras de guerreiros se posicionaram na abertura, para impedir que qualquer morador de Ursa Maior se aproximasse. Ainda que o rei houvesse confessado a ela que os acreditava mortos.
— Seus pés — Vvaria apontou para os delicados sapatos de Saráiba.
— Não importa — ela deu o primeiro passo e sentiu-se afundar na neve até os tornozelos.
O frio não a incomodava. Sentia tanta dor, que não se importava se tivesse que arrancar as pernas para chegar até Lars. Só queria ouvi-lo dizer: “Estão vindo. Estão vindo. Estão vindo.”
— Estão vindo — murmurou e a cunhada a olhou, curiosa, antes de fazer sinal para que viessem ajudá-las.
Tirana e Iágassa, os sacerdotes de Sabila que a rainha conseguira convencer o marido a abrigar no palácio, correram até elas, aparando-a, um de cada lado.
— Majestade, está suando — Iágassa a encarava com seus inteligentes olhos castanhos, a careca brilhando à luz branca do dia.
— Não seria melhor voltar? Sente-se bem? — Tirana diminuiu o passo.
— Continuem — ela respondeu com esforço.
Vvaria correra a última parte do caminho e se postara entre o irmão e Jeara, o desgrenhado magaaeli. Não se jogara nos braços do marido como as donzelas das canções.
Saráiba podia ouvi-los agora. Os cabelos e a barba castanhos-avermelhados de Lars estavam compridos e cheios de neve e gelo. Suas roupas, velhas e imundas. Nunca o havia visto em tal estado. Era tão vaidoso quanto qualquer concheledoriano, sempre perfumado e limpo. O dono dos olhos mais belos da corte e do sorriso matreiro mais sedutor.
Mas seu sorriso desaparecera. E seus olhos… Pareciam mortos atrás dos longos cílios.
— …e a Toca da Raposa está guardada por quatro centenas de Cavaleiros de Terra-e-Mar.
Saráiba finalmente pôde parar, arfando. Ninguém parecia tê-la visto chegar. Estavam em silêncio. Olhou de Lars para Veliórdino.
Seu marido não encarava o cunhado. Os olhos esmodianos, de formato amendoado, fitavam os telhados cobertos de neve, de Ursa Maior, ao longe. Para lá do portão. Ela não podia ver seus lábios sob a barba bem aparada, mas conhecia-o suficientemente bem, para saber que estavam contraídos. Suas costas continuavam retas e ainda parecia um rei, em seu gibão branco com o símbolo do reino, seu casaco de pele de auroque e suas luvas e longas botas de couro de alce.
Mas os flocos de neve derretendo em seus cabelos lhe davam um ar de velho e aquele olhar perdido fez Saráiba estremecer.
— Lars? — ela o olhou, como se implorasse uma palavra tranquilizadora.
O marido da princesa a fitou pela primeira vez e seu olhar pousou na grande barriga de Saráiba. Balançou a cabeça, quase imperceptivelmente e olhou para a esposa:
— Serrásse?
— Ele está bem.
— Tissane?
— A cada dia mais parecida com…
— Quando eles vêm? — Saráiba interrompeu a cunhada e trincou os dentes para não gritar de dor.
Veliórdino fez um sinal para o chefe da guarda e os guerreiros se afastaram do portão. Lars meneou a cabeça na direção da esposa e deu um passo para trás.
— Quando eles vêm? — Saráiba gritou e sentiu que a pele pegava fogo nas axilas, entre as pernas e atrás dos joelhos.
Lars se virou e caminhou em direção ao portão.
— Lars! — a rainha berrou — Para onde ele vai? Para onde ele vai?
Os sacerdotes de Sabila a aparavam pelos braços e ela sentiu uma explosão de lágrimas brotarem de seus olhos quando o portão começou a ser fechado e Lars desaparecia em meio as sombras de Ursa Maior.
— Vocês… — ela apontou um dedo acusatório para o rei e a princesa.
— Ele não pode ficar entre nós — o rei murmurou, em sua voz imperturbável.
— Ele… Ele… — Saráiba reprimiu um grito e agarrou a barriga com as mãos.
— Ele não iria arriscar a vida das crianças — Vvaria explicou — Todos sabíamos que seria assim.
— Eu não sabia! Eu não sabia! — Saráiba berrava e empurrou o braço de Iágassa, que tentava contê-la, para longe — Ele pode ficar! Quando eles vierem vão nos ajudar e…
— Eles não vêm! — Veliórdino gritou e todos sentiram a quase necessidade de se ajoelhar ante a voz do rei — Tola… — ele murmurou, aproximando-se da esposa, duas cabeças mais alto e com uma aparência feroz — O que nós temos que possa lhes fazer falta se desaparecermos? Um bando de rastejadores comedores de peixe, mercenários que se chamam de nobres, piratas que ainda vivem num passado glorioso há muito morto, invejosos e traidores mergulhados na luxúria e nós… Gelo e neve… Por que o Leste sentiria a nossa falta se todos nós morrêssemos afogados em nosso próprio vômito? Em nossa própria merda?! E em nossa dor?!
A rainha se curvou sobre a barriga uivando de dor. Cedeu sobre os joelhos, afundando na neve. Os sacerdotes a contornaram, prestativos, mas Veliórdino os espantou a todos com um olhar, curvando-se sobre a mulher. Afastou a cascata de cabelos da rainha com cuidado e inspirou profundamente ao notar as pústulas negras na parte de trás do pescoço.
O chefe da guarda gritou para que todos os homens voltassem ao palácio e os sacerdotes começaram a berrar ordens ao mesmo tempo. Veliórdino agarrou o braço da irmã com violência e puxou suas tranças para o alto, fazendo-a gritar de dor, enquanto vasculhava seu longo pescoço branco. Vvaria tentou se desvencilhar, mas um olhar do rei a fez parar de se debater e gaguejar:
— Eu… Eu não sabia.
Ele puxou a saia do vestido de veludo da irmã e arrancou as saias inferiores de algodão com um puxão violento, expondo as longas pernas nuas da princesa. Apalpou sua pele até os pelos negros entre as pernas, certificando-se de que a pele estava lisa e saudável, e rosnou:
— Volte para dentro.
Saráiba gritava de dor, curvada sobre si mesma, as vestes e os sapatos encharcados na neve. Os sacerdotes não sabiam o que fazer e Jeara se aproximou do rei:

— A criança, majestade, temos de levá-la…
— Saia daqui — apontou para Tirana — Você também.
A rainha foi deixada com o rei e Iágassa, que murmurou:
— Senhor… Devemos chamar a parteira e preparar…
— Você não precisa de uma parteira! Serve ao deus da cura dela. Não aprendeu nada em seu treinamento?
— Mas a rainha… Ela queria a mesma mulher que a ajudou nos outros partos.
— Pois terá de se contentar com você.
Veliórdino estendeu seu enorme casaco na neve e, com facilidade, puxou a esposa por sobre ele. Saráiba gemia e chorava e tentava alcançar as axilas, sob o pesado casaco e o vestido.
— Está coçando… Está coçando tanto.
— Eu sei — o rei segurou os pulsos da esposa e apoiou o corpo dela no seu — Eu sei.
Iágassa levantava as saias da rainha, apressado e não pôde reprimir um grito de horror ao contemplar o estado avançado da doença. A parte interna das coxas de Saráiba estava empapada em pus e coberta de calombos enegrecidos, moles e úmidos. Como um sacerdote de Sabila, Iágassa estava acostumado à doença, à dor e à morte. Estudara no melhor templo do reino e era considerado o melhor curandeiro da religião oriental em Esmódia. Mas mesmo o maior templo de Esmódia não se igualava aos templos do Leste, onde os verdadeiros deuses eram adorados por todos, sem exceção. Nos Velhos Reinos, sacerdotes como ele tinham de se curvar às crendices, às tradições e aos sacrifícios bestiais dos magaaeli, que falavam pelos três deuses do Oeste.
Essa peste estava acima de todos os seus conhecimentos. E ele nada poderia fazer pela rainha que o acolhera no Palácio Branco quando não era mais que uma menina. Agora, examinando-a, achava que já podia ver a cabeça do bebê no canal já totalmente dilatado. Saráiba deveria estar sentindo as dores há muito tempo. Já passara da hora de fazer força.
— Está na hora, senhora. Empurre.
Saráiba já conhecia a dor do parto. Sâmbar a fizera gritar por uma noite inteira. Ósse saíra dela com pressa, como se quisesse começar logo a viver. E Páchia viera antes da hora. Era tão pequeno e fraco. Não acharam que fosse sobreviver. Ela sofrera todas as vezes ao sentir os corpinhos rasgando-lhe a carne. Mas a dor era uma lembrança enevoada, perto da felicidade de abraçar os bebezinhos chorões que lhe estendiam.
Não seria assim agora. Uma gota salgada pingou em seus lábios e ela viu que o rei chorava.
O rei chorava.
Só podia ser o fim.
Ela empurrou uma última vez e sentiu o alívio de expulsar o bebê de si. Mas a coceira enlouquecedora e o calor nauseante ficaram. E o corpo de Saráiba relaxou no abraço do marido, que ainda segurava seus pulsos com a força de um urso.
— É… É uma menina — Iágassa enrolara o bebê em seu casaco e aceitara o punhal do rei para cortar o cordão umbilical — Parece… É saudável.
Saráiba sorriu e chorou ao ouvir o choro do bebê, tentando vê-la. Mas Veliórdino ordenou:
— Leve-a para dentro e a mantenha separada dos outros na ala fechada. Só você pode cuidar dela. Se um dos dois apresentar as pústulas… sabe o que fazer.
O sacerdote deu um passo, mas retornou, o rosto abatido, e entregou o punhal para o rei. Antes de abraçar o bebê e se afastar.
Saráiba olhou para cima, para os olhos do homem com quem se casara, dezessete invernos antes. Nunca o vira chorar. Nunca estivera acolhida em seus braços daquela maneira.
O rei de Esmódia acariciou os cabelos da rainha e com o braço esquerdo, apertou os braços dela, cruzados sobre o peito. Saráiba sentiu a lâmina gelada em seu pescoço e sorriu docemente:
— Você reerguerá seu reino.

O rei assentiu e o sangue tingiu a neve de Esmódia.
Patrícia Romão é formada em Cinema pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Tradução pela PUC-Rio, mas sua verdadeira paixão é a literatura. Escreve fantasias desde pequena e levou duas décadas de dúvidas, escritas e reescritas para ver nascer Seis Coroas. Mora na Alemanha com o marido e os filhos.